segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Nossa meta: fazer o outro feliz!

Sempre gostei de rede. Desde cedo fui colocado por minha mãe para aquele cochilo quando muito pequeno, ainda com fralda de pano, naquela rede que balançava ora veloz, ora parcimoniosa como os momentos de descanso dentro daquele pano amarrado por cordões, que por sua vez, ficam seguros em dois armadores, que dependendo da ausência de um pouco de óleo ou algo parecido, emite aquele som estridente que causa agonia em muitos.

Na casa de minha mãe a rede sempre estava armada, fosse na sala, nos quartos ou na área de serviço. Em determinados momentos, eu assistia o jogo do Flamengo, o jornal ou apenas deitava após o almoço para um rápido descanso, sem contar as inúmeras vezes que, chegando da universidade, me deitava para relaxar um pouco e adormecia por lá mesmo, acordando apenas no outro dia. Enfim, sempre gostei de rede.

Uns dois anos antes de casarmos, compramos um terreno e neste, uma casa "pela metade", ou seja, apenas no tijolo e faltando praticamente tudo. Eu sempre digo que começamos a construção "quase do zero", mas quando ali entrei pela primeira vez, imaginei imediatamente uma rede armada naquela sala grande, especialmente por causa do vento que passaria através do pergolado (no início ainda era um banheiro) e refrescaria a quentura sentida diariamente por nós sertanejos, seridoenses.

Começamos o serviço da casa que teve vários "tempos", não apenas dois como no jogo de futebol que estamos acostumados aqui no Brasil, mas quase 4 tempos como no futebol dos americanos. Era um dinheirinho sobrando e a casa tomando rumo do nosso futuro lar... Durou quase três anos essa peleja. Mas na época do reboco, já na fase de acabamento, comprei os armadores para distribuí-los em tudo que é lugar na casa. Na minha mente, só não incluiria a dispensa, a cozinha, o pergolado, o muro (risos) e os banheiros. Todavia, para minha surpresa, eu e minha noiva fomos demarcar os lugares desses armadores imaginando a disposição dos móveis, pois sempre combinamos tudo. E... E... E... Fico até sem palavras para a minha frustração naquela época!

Minha amada noiva, hoje amadíssima esposa, veio com um papo de que armadores na sala não combinam. Que decepção! Onde eu iria tirar o cochilo ao meio dia? E aquele ventinho do pergolado? Puxa vida, tinha que implicar logo com os armadores da minha rede? Meu Deus do céu!!! Vale destacar que foi justamente naquele tempo que comecei a exercitar ainda mais as palavrinhas diálogo, renúncia, família, fazer o outro feliz, etc.

Tentei convencê-la, mas não teve jeito. Entendi que fazê-la feliz era o mais importante. Além do mais, eu tinha escolhido as cores da casa. Isso mesmo, no início era multicor. Casa típica daquele povo que gosta das cores porque parecem evidenciar algo novo. E ainda coloquei uma espécie de brilho sobre a tinta que deixou as paredes com aparência de pão doce saído do forno (hahahaha). Como é bom a vida em família... Como é bom reviver esses momentos!

Tive que me contentar com a rede nos quartos, na área de serviço, na garagem, mas... o sonho da sala grudou em mim como nódoa de caju em roupa branca. Não era pra menos, pois o nosso quarto sempre foi muito quente e eu nunca conseguia estirar as pernas na rede como de costume (sou daqueles que se deitam "enviesados"). Assim se passaram 12 anos e 4 meses.

AGORA UMA BREVE PAUSA NA REDE E VAMOS A PINTURA DA CASA... VOLTAMOS EM BREVE!
_____________

Nas férias de 2017 resolvi fazer alguns pequenos serviços na nossa casa no Rancho São José. Eu e meu sogro tivemos que consertar algumas paredes por causa da caliça e aproveitamos a oportunidade e pintamos a parte externa da casa. Esta tinha sido pintada a quase 6 anos. Azul bem clarinho, quase branco, cor que lembrava o manto de Nossa Senhora.

"Vamos pintar que cor minha filha?", perguntei a minha esposa. "Dessa vez eu preferiria um marrom bem clarinho", respondeu. Fui na cidade e comprei cal e um tubo de pigmento marrom, mas aquela junção não iria dá certo. Aquele pigmento é próprio para tintas a base d´agua, não necessariamente a cal. Voltei a cidade. Dessa vez para comprar um latão de tinta a base d´agua. Já que seria mais caro, eu decidira comprar o azul bem clarinho. Pesquisei em duas lojas e nada. Das opções disponíveis, tinha uma cor amarronzada, tipo areia, ou melhor, o nome da tinta é areia. Ah, é marrom como Adélisan queria. Comprei e começamos a pintar. Já no início da pintura, vi que os olhos de minha esposa começavam a brilhar vendo as paredes mudarem de cor... Isso para mim era suficiente! 
Todavia, chega a primogênita e pergunta porque não estou pintando com a cor azul claro, já que é a cor que mais gosto, além da questão do manto de Nossa Senhora. Respondi imediatamente que aquela cor era a preferida de sua mãe. Isso foi o bastante para que aquela moleca fosse questionar sua mãe e ao mesmo tempo (tem cabimento um negócio desse?) dizer que aquela cor não combinava com a casa do sítio e tudo mais. Alguém pode estar pensando: De novo essa história de combina ou não combina? O fato é que se combinava ou não, a filha ficou chateada com a mãe porque esta preferia o marrom da areia ao invés do azul do céu do pai. 

Mas como numa família em o céu deve chegar a terra e a família na terra precisa se esforçar para chegar ao céu, chamei aquela garotinha de 11 anos num canto e disse: "Preste atenção no que vou falar. O que importa não é a cor da parede, mas a alegria do novo em nossas vidas. Você pode estar perguntando: Como assim papai? O novo que deve existir na vida de um casal, como eu e sua mãe. O novo de aprender a renunciar suas próprias vontades e gostos para ver a alegria do outro. Minha filha, eu estou apenas tentando fazer sua mãe feliz! Isso para mim, basta! Entendeu?" Foi esse o mini sermão. "Entendi papai", respondeu aquela adolescente mirim ainda com a cara meio emburrada. "No final você vai até achar legal o resultado", finalizei a conversa.

E realmente ficou legal. Opa, não sei se você concorda, mas nós gostamos. E mais: aprendemos mais uma lição sobre a vida em família, não é mesmo?

VOLTEMOS A REDE, OU MELHOR, A HISTÓRIA DA REDE...
______________

Na semana seguinte ao serviço no Rancho São José, eu e meu sogro fizemos quase o mesmo em nossa casa. Dessa vez, pintamos a casa toda, as portas e tudo mais. Entretanto, num dos dias do serviço, retomei a conversa sobre a rede, os armadores... Já imaginava a resposta da minha querida designer-arquiteta-paisagista-esposa-mãe que é pedagoga de formação. Ela certamente diria: nã... Rede na sala não combina, mas... mas... mas...

PERAÍ!!!

Simplesmente, sem me avisar nem me dá tempo de se preparar psicologicamente, ela disse que dava certo colocar armadores na sala. Puxa vida! Bingo! Gol! Vocês devem estar imaginando o meu sorriso de incredulidade e a alegria que me invadiu naquele dia. Desculpem o exagero, mas escrever sobre essas coisas é complicado. Sempre imagino que não consigo descrever as cenas e os sentimentos como gostaria... Também não é para menos, sou apenas um leitor e admirador de Machado de Assis, apenas isso.

Meu sogro furou as paredes; fui comprar os armadores e então, no final da manhã, eles já estavam "sentados" nas paredes da sala. Agora era segurar a ansiedade para a estreia no dia seguinte ou de acordo com a cautela do pedreiro, apenas 48 horas depois do serviço. Ufa! O que são 48 horas diante de 12 anos e 4 meses? Isso é nada!

Passado esse curto prazo (confesso que em alguns momentos pareceu longo - ehehehe), deitei na rede com um bom livro e sorri... Parecia pinto no lixo! Ela olhou para mim e também sorriu... As crianças sorriram... Meus amigos se divertiram com a história, pois conheciam essa "odisseia". Passados mais de quinze dias de tal façanha, já dormi várias vezes na rede na sala sentindo o ventinho do pergolado. A filha mais nova também já se deitou na outra rede. Isso mesmo! Na sala agora tem espaço para duas redes! D U A S! Lógico que pensei também nela. Coisas típicas de um casal que se ama.
Por fim, o que dizer de tudo isso? Que a vida conjugal é construída de diálogos, de renúncias, de sorrisos e lágrimas, de situações que nos levam a refletir que sempre valerá a pena fazer o outro feliz. Foi para isso que nos casamos e selamos diante de Deus tal compromisso. O valor do matrimônio é tão sublime que nunca conseguiremos entendê-lo em sua plenitude. Assim, podemos não só admirá-lo, mas nos esforçarmos para experimentar as graças que o Senhor derrama nos corações que desejam ser fieis um ao outro e primeiramente a Deus.

E se alguém me perguntar se valeu a pena esperar 12 anos e 4 meses pela rede na sala, direi: Lógico que sim! Minha esposa, como sempre, me surpreendeu e me fez ainda mais feliz... Pois sei que antes de dizer que os armadores na sala combinam ou não, ela me dirá que me ama.

E você? Quantos armadores faltam na sua sala? Está precisando de uma nova pintura na parede da casa? Confie em Deus e na Sua divina Providência! E não se esqueça: aprenda e experimente dialogar, renunciar e fazer o outro feliz.

Danilo e Adélisan (e seus filhos)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A vocação é como uma pipa

Era uma segunda-feira pela manhã. Ainda desfrutávamos dos últimos dias de férias no Rancho São José. Levantei cedo como de costume, e aos poucos as crianças também foram acordando. Uma delas já estava na empolgação de ir brincar na areia, outra surgiu sonolenta na sala, e outra amanhecera bem esperta e já saudosa devido a avó materna que desceria a serra (de Lagoa Nova a Currais Novos) para uma consulta médica. Tomamos café, não todos no mesmo horário por causa dos desencontros acima mencionados, mas logo ao término fui a cidade levar minha mãe para pegar um táxi que a transportasse até Currais Novos. E antes de sair, tive a ideia de chamar Maria Clara, nossa filha de 7 anos (ou quase 8, como ela gosta de dizer) para nos acompanhar. Na verdade, vez por outra procuro arranjar um "programa/atividade" exclusivamente com um dos nossos filhos. Creio que essas oportunidades são importantes entre pais e filhos, especialmente quando percebemos que eles gostariam de conversar algo, ter um momento a sós com o pai ou a mãe ou ambos.

Era uma manhã ensolarada, como quase todas no nosso sertão... Ao atravessar a porteira do Rancho São José, já se via pelo retrovisor a poeira que Sorec deixava para trás (ah... Sorec é o nome do nosso carro!) e de vez em quando surgia um morador daquela região serrana ou alguns últimos cajus da safra que se finda. Em 10 minutinhos já deixávamos minha mãe na parada do táxi e retornamos para casa. Eita que momento bonito! Ali, naquele carro, começara um diálogo entre pai e filha. Ela, que aparentemente é bem tímida, quando se sente a vontade, conversa bastante. Nesse aspecto puxou literalmente ao pai, pois se deixar, já viu!

A conversa foi sobre assuntos diversos, desde a ansiedade para o retorno das aulas até chegar no assunto vocação. Isso mesmo que você leu: V O C A Ç Ã O! Abro parênteses para dizer que aqui em casa temos sempre o hábito de conversar sobre a importância do chamado de Deus para cada um de nós. Aliás, convivemos com diversos amigos e familiares com vocações tão distintas. Temos ao nosso redor casais, religiosos e religiosas, padres, missionários, celibatários, ou seja, pessoas que na sua vocação específica buscam seguir plenamente a vontade do Senhor.

Estávamos no carro, lembram? Trafegando naquela estrada empoeirada, minha filha perguntou simplesmente o que eu achava que ela seria quando se tornasse adulta. Eita pergunta complicada e simples ao mesmo tempo... Então expliquei que eu e sua mãe sempre rezamos pelas vocações dos nossos filhos. E nossa alegria é saber que desde cedo eles já começam a ter o discernimento que fazer a vontade de Deus é a melhor escolha, seja para se tornar um profissional bem-sucedido e que forme uma família, seja para morar em outro país como missionária ajudando os pobres ou quiçá enclausurada numa vida monástica.

Como vocês devem ter percebido que o trajeto de volta era curto, assim como o da ida, chegamos rapidamente em casa. Novamente atravessamos a porteira e a porta azul do Rancho São José, sinal da proteção de Nossa Senhora em nossa casa. Naquele momento, o sol já estava "tinindo", mas ainda não estava no "pingo do meio dia", pois era umas 9 para 9:30. Nossa comadre Leila lá em casa estava com o querido João Pedro "Piu", fora ela que trouxe a novidade das pipas durante esses belos dias. Aproveitamos que nos dias anteriores tínhamos soltado pipa e então fomos novamente se aventurar naquela brincadeira pueril tão benfazeja.

Eu que aprendera no dia anterior a soltar pipa, já não tive tanta dificuldade dessa vez. E lentamente, aquele fino papel colado em pauzinhos que se cruzam, foi subindo com sua cauda não tão grande, a mercê dos ventos daquela região serrana que além do frio, fica aos poucos conhecida pela "riqueza" do vento. E foi justamente naquela manhã, naquele lugar tão precioso para nós, que entreguei a Maria Clara, aquele rolo que continha uma linha de 80 metros, já solta completamente no céu, com exceção do nó que ligava a pipa a um de nós. Nesse momento que entreguei a pipa a Maria Clara, lembrei de nossa conversa sobre vocação e disse: "Filha, a vocação é como uma pipa". E continuei...

A pipa "voa" conforme o vento e ao passo que se solta a linha, ela toma voos ainda mais altos. Assim é na vocação, pois o chamado de Deus quando é feito, está condicionado a uma resposta nossa. Se dizemos sim a esse chamado, Deus nos conduz para onde Ele quer... Além do mais, essa resposta acontece diariamente. E cada sim dado a Deus é uma oportunidade de seguir adiante para onde Ele quer. Por isso devemos ser como essa pipa que voa em direção ao céu. A vocação é justamente o caminho por Deus traçado para que trilhemos até chegarmos ao céu. E quando nos encontramos nessa vocação que Deus nos chamou, podemos repetir como Santa Teresa de Los Andes: "Deus é alegria infinita". Ou então usar as palavras da mesma santa chilena: "Uma alma unida e identificada com Jesus tudo pode". Filha, precisamos deixar que o vento do Espírito Santo inspire em nós o desejo de sempre fazer a vontade de Deus, seja ela em qualquer vocação.
Ela ouvia atentamente e demonstrava entender o que eu estava explicando e continuou segurando a pipa. Lembrei da canção gravada pela Ir. Kelly Patrícia - Passarinho - que é baseada num belíssimo texto de Santa Teresinha do Menino Jesus e que gostamos muito de ouvir. Finalizei aquele diálogo dizendo que não importa se somos pipas enormes ou singelas, se a linha no carretel nos permite ir muito alto ou se somos modestos no vôo, se somos passarinhos frágeis ou mais resistentes, mas o desejo que habita no coração é o essencial. Que possamos repetir como a santa da Infância Espiritual: "Quanto a mim considero-me apenas como um fraco passarinho coberto só de leve penugem, não sou uma águia, dela só tenho os olhos e o coração, pois apesar da minha extrema pequenez ouso fixar o Sol Divino, o Sol do Amor, e meu coração sente em si todas as aspirações da águia..." (Obras Completas, Manuscrito B, O passarinho e a águia divina, p. 216). Por isso Maria Clara, desejemos ir para o céu tão belo... Aspirar as coisas celestes... E então nossas vocações serão reflexos de Deus em nossas vidas.

Dei um beijo em sua testa e fomos fazer outras coisas naquela manhã ensolarada. Simples assim. Eu e minha esposa continuamos rezando pelas vocações dos nossos filhos e sonhando um dia estar no Rancho São José olhando para o céu contemplando a vontade de Deus na vida de nossa família, pois juntos sempre estaremos no Coração do Pai.

Danilo e Maria Clara

Obs: As fotos foram tiradas em dias anteriores do fato ocorrido. Como sempre acontece, algumas situações marcantes da vida ficam guardadas apenas no coração. E espero que esse diálogo seja fecundo também para você que nos lê. Deus o abençoe sempre.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Uma dança em família



Vinde Espírito Santo... Creio em Deus... Pai Nosso... Ave Maria... E assim começou a oração do “Terço” em mais uma noite no Rancho São José...


          Lá estávamos eu, minha amada Adélisan, a primogênita Maria Gabriela, a singela Maria Clara e o “santo cavaleiro” Pedro José, além de tantos amigos e familiares que diariamente estão conosco em nossas orações.
            Foi um dia cansativo, literalmente. Fiquei incumbido de aplicar uma espécie de verniz na madeira do alpendre e Adélisan estava no 2º dia da lavagem de roupas que se acumulara nos últimos dias. As crianças brincaram, dormiram, comeram e também colaboraram com algumas tarefas domésticas no decorrer do dia. Apesar de uma pequena indisposição de uma delas, fato que atribuímos por não ter tomado café no horário devido, o dia foi tranquilo e pudemos mais uma vez louvar a Deus nas pequenas coisas da vida em família. Porém, durante a noite após o jantar, algo “extraordinário” aconteceu!!! Uma coisa extraordinária que ocorre na ordinariedade do cotidiano, como muito bem ensinou São Josemaría Escrivá e Catherine Doherty. Sem mais delongas, vamos ao fato em si.

Por Deus e todos os nossos anjos da guarda e santos de devoção, num instante a cozinha miraculosamente se transformou num belíssimo palco. Tal foi minha admiração com tal peça que ali ocorria bem a minha frente. Aliás, nessa peça, eu também era personagem, e por isso me arvorei em escrever essa estória, pois nessa noite “uma dança em família” fez bailar nossas almas assim como ocorre em tantas famílias e casas pelo mundo afora. Não tenho como não lembrar de uma família em especial que morou em Nazaré, no escondimento daquele vilarejo, e que muito ensinou e continuará ensinando a essência do ser família: “Jesus, Maria e José: nossa família vossa é.”

            A dança em família ocorrera no palco da cozinha do Rancho São José (ver foto). De fato, o palco estava perfeitamente disposto para aquele momento ímpar. Nele se encontrava uma mesa com suas cadeiras, os pratos e talheres do jantar, a louça que se sujara, a pia, a bucha para lavar, o detergente ao lado, algumas panelas, os panos de prato, a dispensa, a cuscuzeira... Pronto! Tudo estava ali, quase tudo em ordem, apenas aguardando o início do baile para que tudo fosse ordenado, ou melhor, posto nos seus devidos lugares.

            Fui o primeiro a levantar da mesa após o jantar e numa breve oração agradeci a Deus pelo alimento que tivemos em nossa mesa. Logo em seguida, me dirigi a pia e comecei a tocar a canção da lavagem dos pratos... Põe detergente na bucha, esfrega, esfrega, lava, lava, enxuga, enxuga... Preciso dizer que o “fundo musical” foi o Terço em família, sendo as 5 dezenas divididas por 5, ao passo que todos contemplamos os mistérios dolorosos de Nosso Senhor. Assim se ouviam Ave Maria... Santa Maria... Daqui um pouco surgia um Glória ao Pai... “Alguém está contando as Ave-Marias?” perguntou alguém. “Eu tô”, respondeu outro alguém. E ali se debulhava o Terço como o sertanejo feliz debulha a espiga do milho do seu roçado.

            Enquanto eu era o motorista da pia de louças, uma das Marias assumiu sua intimidade com o pano de prato. Eita que coisa mais linda de se ver! Ninguém precisou pedir para ajudar e o ato voluntário daquela jovenzinha animou os corações dos pais que já bailavam de alegria por ali estarem. E foi assim que perceberam que a primogênita entrara na dança em família. Na verdade, a mãe ia organizando a mesa retirando as vasilhas utilizadas no jantar e colocando-as na pia. Como sempre, ela ditava o ritmo da dança com seu jeito paciente e disciplinado.

            O caçula, mais conhecido como “Caba véi” ou Pedrão ou Seu Pedro ou até Patrãozinho, sempre quer ser o ajudante do pai nessas empreitadas, no entanto, como o terço já havia iniciado, começou a pedir para segurar um, justamente para agarrar as “bolinhas” das Ave-Marias. Uma das irmãs o ajudou a pegar um terço que estava na estante da sala e serenamente sentou-se numa das cadeiras da mesa para rezar. Aliás, conversou mais do que rezou, mesmo tendo puxado a última dezena ou o quinto mistério doloroso (Crucifixão e Morte de Jesus). “Sou eu agora? Sou eu de novo?” E as perguntas do pequeno se misturavam as Ave-Marias encurtadas, às vezes, pela pressa de acabar logo. Todavia, ele também estava naquela dança. Cada um a seu modo e compasso... Os menores e os maiores... Juntos no mesmo ritmo.

            A xará de Santa Clara, que antes do jantar me pedia para assistir o filme da fundadora das Clarissas, não estava com o pano de prato, mas ajudava a mãe na limpeza da mesa e do chão da cozinha, agarrada numa vassoura maior que ela. Eu sei que vocês sabem como ficam a mesa e o chão quando crianças fazem refeições! Parece que pintos ali comeram... E nessa noite teve cuscuz. Ah, ele se espalhou também pela mesa e pelo chão, além dos pratos e destes para os estômagos famintos.

            Dito isto, fica fácil de imaginar o palco tomado com essa gente. Além deles, tem a pia, a vassoura, o terço, o pano de prato, as vozes, Ave-Maria, Santa Maria, os corações, a música, o amor, a cumplicidade... Percebem que cena maravilhosa? Sério mesmo, percebem? Vale ou não vale a pena emoldurá-la? A peça durou no máximo 25 minutos, mas foi tão intensa e singela que nem sei explicar como gostaria, mas apenas descrever esses pormenores. Foi assim que por um instante me vi observando tudo aquilo e um sentimento de gratidão jorrava de dentro do meu peito com tanta intensidade que eu só conseguia sorrir... e bailar, e dançar, e cantar, e louvar, e bendizer a Deus pela nossa família, pela graça de enxergá-Lo no cotidiano, a começar daqueles que estão mais próximos – minha esposa e filhos. Sei que noites como essas não são exclusivas em nossa casa, mas uma rotina. Não me refiro a uma rotina enfadonha, mas a um aprendizado constante que se torna sempre uma oportunidade de estarmos juntos como família de Deus.

            Toda a louça lavada e devidamente enxugada foi guardada. O pano de prato, já úmido, fora pendurado. A vassoura voltou para trás da porta. O terço, após a Salve Rainha e o sinal da Cruz, retornou para uma galinha de barro que se encontra na estante, servindo de “guarda terços”. A ordem na cozinha foi o sinal que aquela dança se encerrava. As crianças já começavam a perguntar: “O que vamos fazer agora? Vamos jogar o jogo do Mico? Hoje vai ter filme?” A mãe já se preparava para tirar algumas roupas do varal e ensaiava outra dança com as roupas para engomar. E eu fiquei organizando as brincadeiras da noite.

            Jogamos o jogo do Mico. Três partidas! A mãe não aguentou e veio jogar conosco a última delas. Pra variar ficou com o Mico e perdeu o jogo. Coisas de mãe que até na derrota se alegra com a alegria dos filhos... A criançada riu da falta de sorte da mãe. Eu já bocejara inúmeras vezes deitado na rede com o caçula. O sono chegou... A trouxa de roupa para engomar parecia o Pico do Totoró de tão alta. “Deixe essa roupa para amanhã, Maria”, disse eu. Lembrei novamente que o dia foi cansativo e intenso. Fomos dormir.

            Nesse momento, às 23h02min. o silêncio reina aqui no Rancho São José. Escuto apenas o vento lá fora que balança agitadamente as árvores. No quarto defronte ao nosso, ouço o ressonar do caçula que está com o peito cheio e se chego mais perto, ouvirei as irmãs que dormem serenamente. Ao meu lado, está a mulher que amo e que tenho a graça de compartilhar essa “dança em família”. Cansada, dorme pacientemente como sempre. Por fim, fico por aqui e despeço-me desejando-lhe boa noite. Amanhã tem mais... Tem o restante das linhas e dos caibros do telhado do alpendre para pintar, a trouxa de roupa para engomar, o café, almoço e jantar para cuidar, um artigo do doutorado para terminar, as crianças para animar e olhar, e especialmente, o auxílio e a força de Deus, com a intercessão de Nossa Senhora e São José, para nos ajudar. Viva a vida em família!



De um indigno escravo da Cruz e da Virgem Maria

domingo, 11 de dezembro de 2016

A participação das crianças na Santa Missa - Parte 4

Nesta penúltima postagem sobre "A participação das crianças na Santa Missa", venho tratar de algumas motivações que podem ser melhor observadas pelos pais, e consequentemente repassada para seus filhos. Digo motivações no sentido de que essas observações que serão expostas, podem ajudá-los numa compreensão mais adequada da Santa Missa e por conseguinte, na participação frutuosa de toda a família na celebração.

Antes de adentrar no assunto, gostaria de fazer algumas advertências importantes. Lembrem-se que cada família tem sua particularidade e que as experiências aqui expostas podem, na medida do possível, serem aplicadas com os filhos, todavia, não necessariamente da mesma forma. Cada criança tem sua personalidade específica e cabe aos pais moldarem seus filhos de acordo com essas especificidades. Isso não quer dizer que devemos admitir que a criança faça "do seu jeito". Aqui, a autoridade pesa sobre os pais que são os primeiros e principais educadores. Abrir mão dessa condição é negligenciar uma tarefa essencial e um dever primordial na vida de um pai e de uma mãe. Por isso, reitero que não há "respostas prontas", mas princípios que norteiam a vida de uma família inserida na Igreja, tais como a obediência, o respeito ao sagrado, o amor a Jesus, etc.

Além do que já foi exposto nas três primeiras postagens, os pais precisam compreender que a Missa não é uma simples obrigação, um fardo ou 1 hora ou mais de tédio semanal... Quem pensa dessa forma não conhece nem ama a Sagrada Eucaristia. Muitos que se dizem católicos vão para a igreja e por muito pouco se irritam por isso ou por aquilo que acontece durante a celebração. Há, na maioria das vezes, uma considerável ignorância ou desconhecimento de muitos a respeito da Santa Missa, até mesmo por não prestarem atenção nas homilias, nos gestos que são realizados durante a celebração, nas leituras proferidas, etc., bem como na formação catequética que tiveram. Na verdade, só conseguiremos orientar corretamente nossas crianças na Missa, se entendermos que "na última ceia, na noite em que foi entregue, nosso Salvador instituiu o Sacrifício Eucarístico de seu Corpo e Sangue. Por ele. perpetua pelos séculos, até que volte, o sacrifício da cruz, confiando destarte à Igreja, sua dileta esposa, o memorial de sua morte e ressurreição: sacramento da piedade, sinal da unidade, vínculo da caridade, banquete pascal em que Cristo é recebido como alimento, o espírito é cumulado de graça e nos é dado o penhor da glória futura." (Constituição Sacrosantum Concilium, n. 47).

Dito isto, a catequese sobre a Missa geralmente começa em casa (já falamos disso anteriormente), ou melhor, ANTES, DURANTE e DEPOIS da celebração. Mas como?

a) ANTES: Domingo, dia do Senhor, seja acordando mais cedo ou se preparando para ir a Missa a tarde/noite. Os pais arrumam suas crianças e geralmente dizem: "Como você está bonito!". Mas por que não acrescentar? "Hoje é dia do Senhor, precisamos nos arrumar para irmos ao encontro de Jesus na Missa". "Bom dia crianças! Hoje é dia do Senhor! Vamos ao encontro do Rei da nossa família!". E por aí vai... Seja no carro ou caminhando até a igreja, um diálogo simples sobre o tempo litúrgico, as festividades que se aproximam, a necessidade de se comportar na Missa, etc., podem ser pontos valiosos nessa "catequese".
b) DURANTE: Obviamente que os pais não vão ficar dando "sermão" nos filhos nem explicando cada palavra que disse o padre, mas dependendo da inquietude da criança, os pais podem começar a explicar-lhes algo. Uma imagem de Nossa Senhora ou o Crucifixo que está no altar; a letra da música cantada pelo coral; os gestos do sacerdote; o ajoelhar-se; o toque do sino; a benção; a aspersão da água benta; o caminhar no momento do Ofertório e da Comunhão. Vale lembrar que essas orientações são ao "pé do ouvido", sem incomodar quem está do lado. Aos poucos vocês perceberão que a Liturgia em si "fala"! E a criança sendo bem orientada, começa a "escutar" a Liturgia. Recentemente, nosso filho caçula viu um coroinha se aproximando com o turíbulo... Observei que seu semblante mudou imediatamente. Os olhos já não piscavam e o garoto estava boquiaberto... Aproveitei a oportunidade e falei do incenso, da fumaça que sobe ao céu assim como as nossas orações a Deus. E vi que aquilo teve sentido para ele, mesmo sem entender muito.

Orientar para que eles se ajoelhem no momento oportuno ou fiquem de pé ou sentados em outros, é outra questão relevante. Ah, mas ele é muito pequeno e vai doer os joelhos... dirão alguns. Se assim pensam, não conseguem imaginar que mais tarde o peso de não conhecer a Deus será muito mais doloroso. As crianças, na grande maioria das vezes, imitam seus pais. Por isso, deem o exemplo! Não cobrem algo deles se vocês não fazem.

Desde o nascimento de nossa primogênita, cultivamos neles um amor e zelo por Jesus Sacramentado. E uma das formas de ensinar isso é após a Comunhão, no momento mais conhecido como "ação de graças". Geralmente, abraço meu filho ou minha filha e peço para que escutem o Coração de Jesus batendo. "Ah, escutei! Jesus está aí?" Certa vez perguntou o caçula. "Sim, Pedro, está aqui no meu coração. Vamos agradecer a Jesus por nossa família, por nossas vidas?" Dificilmente a criança se negará a um ato tão puro e singelo. Numa dessas oportunidades, ele olhou para Jesus que estava em meu coração e disse: "Aaarrrrrggghhhhh, eu sou um dinossauro!". Quase morro de rir na Missa, mas fiquei feliz porque ele entendeu que Alguém ali estava, e era Jesus. São momentos tão simples, mas ao mesmo tempo, muito significativos na formação do cristão.

c) DEPOIS: Após a Missa, a nossa missão está apenas começando. É preciso que tudo aquilo que experimentamos minutos antes, seja transformado em ações, em orações, em mudança de vida. E nós enquanto pais devemos lembrá-los disso. Por que não pegar um trecho do Evangelho proclamado naquela Missa e conversar com as crianças? Por que não explicar algum detalhe daquele dia que não foi possível ser dito no momento da Missa? Por exemplo: neste 3º domingo do Advento, o Domingo Gaudete (porque alegremente e ansiosamente aguardamos a chegada do Natal do Senhor), os paramentos litúrgicos são da cor rosa, assim como no 4º domingo da Quaresma - Domingo Laetare. Então, será que a criança percebe algo "diferente" na igreja? Essa foi minha pergunta de hoje a Maria Clara (7 anos), que após um giro de 360º com seu olhar, disse: "A roupa rosa do padre!".

E assim vamos cultivando neles o amor a Jesus Eucarístico, pois acreditamos piamente que da Eucaristia emana todo o bem que necessitamos. Na Santa Missa temos um verdadeiro encontro pessoal com Jesus. E as crianças também são convidadas para esse encontro. Por isso, amados pais, criem oportunidades para que esses encontros ocorram com frequência, e que estes sejam frutuosos. Por fim, lembrei agora de várias biografias e escritos de santos que já li. É impressionante como boa parte deles foram "chamados" ainda quando crianças, ou seja, na Missa, Deus os concedia a graça de uma fé ardente e enamorada, típica das almas esponsais.

No entanto, se hoje os pais se preocupam mais com a profissão futura dos filhos do que com as suas vocações, fica difícil orientá-los nesse aspecto. É comum a criança dizer que deseja ser médica, policial, advogada, etc. Raríssimas vezes a criança diz que deseja ser santa, ao contrário do exemplo de Santa Teresinha do Menino Jesus. Aqui não pretendo deixar de lado essa preocupação justa dos pais (eu e minha esposa também nos preocupamos com isso), mas acreditamos que esta não é a mais importante. "Portanto, sede santos, assim como vosso Pai celeste é santo" (Mt 5,48). Se eles serão médicos, advogados, policiais... Que sejam médicos santos, advogados santos e policiais santos!

E então, o que está achando dessas partilhas? Fique a vontade para enviar seu comentário ou dúvida, pois muitas situações diferentes ocorrem nas diversas famílias.

De um indigno escravo da Cruz e da Virgem Maria

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O Amor que dá vida

Essa postagem tem como título o mesmo do excelente livro de Kimberly Hahn publicado pela Ed. Quadrante que trata do maravilhoso plano de Deus para o matrimônio. A escolha foi por compreender que o amor entre os esposos gera vida, e entre estes e os seus filhos, continua gerando vida. Nesse sentido, um acontecimento singelo ocorrido na última semana de aula de nossa filha Maria Clara (7 anos) nos chamou atenção.

Sempre soubemos o quanto nossos filhos amam a vida fraterna e a relação entre eles, mesmo com aquelas "arengas" típicas de irmãos. Brincam, choram, irritam, fazem as pazes e se ficarem mais de um dia distantes um do outro, começam a sentir saudades... Com a experiência da quarta gravidez de minha esposa e consequentemente a perda do bebê, uma certa expectativa foi gerada entre eles, o que entendemos ser natural, mas tudo confiamos na vontade do Senhor e continuamos nos colocando a disposição Dele, para que Sua vontade prevaleça em nossa casa.

Maria Clara ao fazer sua atividade escolar em casa (ver foto ao lado), precisava preencher duas colunas, sendo uma com necessidades e outra com desejos. Na coluna da esquerda, a pequena escreveu: água, alimento, saúde e Deus. E na coluna da direita que pedia que fosse escrito os desejos, surgiu o seguinte: ter mais irmãos. Naquele momento, a mãe perguntou: Tem outro desejo que você gostaria de escrever? Respondeu a filha: Não, esse é o único desejo que tenho.

Quando as pessoas se preocupam se um quarto vai dá para duas ou três irmãs ou que elas ao crescerem precisarão de privacidade, se eu terei condições de pagar a escola das crianças ou o plano de saúde, etc., uma criança pede mais irmãos. Mas por que isso? Porque a experiência com os seus irmãos é salutar, é sublime! Escutamos algo semelhante do caçula Pedro José que vive perguntando se a mãe tem um bebê na barriga; enquanto a primogênita sempre questiona quando a mãe ficará grávida novamente... Isso é de uma beleza incomensurável!!! Eles podiam entender que mais irmãos é ter que dividir suas coisas e enxergar nisso algo ruim, mas não. Compreendem que esse dividir/partilha é natural de uma família que busca estar junto em todas as circunstâncias, seja na fartura, seja na dificuldade. Para dá um exemplo mais claro, recentemente todos de casa, com exceção de Pedro José que é bem pequeno, assumimos algumas tarefas que antes eram da empregada doméstica que aqui viveu durante uma década. Agora com sua saída, tivemos que nos virar... E então, uma lava a louça, outra enxuga, outro arruma e por aí vai. Então, como querer mais irmãos se o trabalho vai aumentar? Não tem problema, pois se o trabalho aumenta, o amor se torna muito maior entre nós.
Deixo claro que partilho nossa experiência com quatro filhos (sempre contamos com nosso bebê no céu), o que não necessariamente é a realidade dos demais casais. Sempre desejei uma "casa cheia" de crianças e lembro das conversas com minha esposa, na época namorada, que eu divagava sobre a mesa com as cadeiras completas, isto é, rodeada de filhos. Todavia, isso é uma particularidade de cada matrimônio. No entanto, chamo atenção para aquilo que a Igreja nos orienta, mesmo sendo justo e aceitável o espaçamento entre os nascimentos dos filhos: "Um aspecto particular desta responsabilidade diz respeito à regulação da procriação. Por razões justas , os esposos podem querer espaçar os nascimentos de seus filhos. Cabe-lhes verificar que seu desejo não provém do egoísmo, mas está de acordo com a justa generosidade de uma paternidade responsável. Além disso, regularão seu comportamento segundo os critérios objetivos da moral. (Catecismo da Igreja Católica, n. 2368).

Percebam que esse espaçamento não deve advir do egoísmo. Muito pelo contrário! Cada casal tem suas motivações específicas e aqui não entraremos em questões que só cabe a eles. Entretanto, podemos partilhar das maravilhas que ocorrem quando Deus nos concede a graça de presentear nossos filhos com irmãos!!! Não há presente mais belo! Nesse exato momento que escrevo, escuto as vozes deles brincando de esconde-esconde dentro de casa. Pedro José acabara de passar aqui com a espada dizendo que estava caçando piratas (eheheheh), ou seja, procurando as irmãs (hahahaha). Isso é bom demais!

Vejam o relato do excelente livro Gastando tempo com os filhos de Mannoun Chimelli: “A propósito, uma pesquisa realizada pela Universidade de Valência (Espanha) entre 1600 crianças de 4 a 14 anos, revela que o melhor ‘brinquedo’ que os pais podem oferecer aos filhos é um irmão! Os que são filhos únicos, ou têm apenas um irmão, sentem-se sós, e acabam desenvolvendo carências emocionais e afetivas (a assim chamada ‘síndrome do filho único’) que os colegas de escola ou amiguinhos da vizinhança nunca são capazes de suprir” (p. 24).

Tivemos essa sensação no nascimento de Maria Clara (a segunda gravidez), de Pedro (a terceira) e do bebê (a quarta). Aquela confirmação ("positivo") do exame; aquela consulta no médico ao ver a ultrassonografia, eram mais do que presentes para os irmãos, eram a confirmação de que o amor dá vida! Sempre fui uma pessoa observadora e nesses momentos (na consulta ao médico em que as crianças acompanhavam os pais) eu faço questão de ficar atento nas feições das crianças, na expectativa, nos olhares... É impressionante a alegria que eles sentem.

Kimberly Hahn compartilha no seu livro algo do que tenho dito: "No dia em que David nasceu, os nossos três filhos mais velhos vieram ver-nos ao hospital. Depois de tomar David nos braços, o meu filho mais velho, Gabriel, veio para o meu lado e tomou-me as mãos com carinho. Sussurrou devagar: ‘Mamãe, não encontro palavras para agradecer-lhe’. Os dois ficamos sem respirar; o seu agradecimento emocionou-me. Os filhos são um presente, tanto os crescidos como os pequenos, para nós e entre eles" (p. 169).

Por isso queridos leitores, vale a pena confiar em Deus e acreditar que o amor de uma família se dá principalmente na generosidade, na partilha, na convicção de que o Senhor nos ampara e até mesmo nas renúncias que são comuns numa vida familiar e comunitária. Ah, mas eu preciso trocar de carro, fazer aquela viagem, reformar minha casa, muita conta para pagar... Sabemos disso, mas um filho NUNCA será um fardo para aqueles que amam verdadeiramente. Por isso, a Igreja no Concílio Vaticano II, bem como por meio da Encíclica Humanae Vitae do Papa Paulo VI e a Exortação Familiaris Consortio do Papa João Paulo II, só para citar alguns documentos, exortam com muito carinho essas famílias que se abrem à vida: "Devem-se mencionar especialmente entre os esposos que cumprem dessa maneira a missão que Deus lhes confiou aqueles que, de comum e prudente acordo, acolhem, com alma grande, uma prole mais numerosa para ser convenientemente educada (Gaudium et Spes, n. 50).

Por fim, concluo dizendo que a cada dia que passa, somos mais felizes ao vê-los crescendo e tendo a certeza que o sim do matrimônio dá vida em todos os sentidos. Os irmãos são os verdadeiros e fidedignos amigos uns dos outros. Precisamos aprender a cultivar essa generosidade em nossas famílias, e isso começa do amor e do respeito entre os esposos.

"Nunca ouvi ninguém dizer no fim da vida que teria desejado ter um filho a menos, mas ouvi muitas pessoas dizer que teriam gostado de ter ao menos mais um filho" (KIMBERLY HAHN, p. 169).
Quem passa por experiências semelhantes ao que partilhei acima, sabe perfeitamente a alegria de viver assim. Quem ainda não vive realidade semelhante, mas que deseja, continue confiando em Deus e em Sua divina Providência, e faça por onde as coisas aconteçam. Quem discorda do que partilhamos é porque ainda não conseguiu compreender que nesta vida há "bens" muito, mas muito mais preciosos que ouro e prata, e dentre estes estão os filhos. Isso digo com toda convicção. O Natal do Senhor se aproxima e nós continuamos pedindo a Ele que nossos corações se transformem em verdadeiras manjedouras para acolhê-Lo. E se Ele nos conceder a graça imensa de mais uma vez celebrar o "natal" em nossa casa com mais um rebento, a alegria será ainda mais especial. Em Ti confiamos e entregamos tudo que temos e somos. Vem Senhor Jesus!

De um indigno escravo da Cruz e da Virgem Maria